Luís Fernando Veríssimo
O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim,
somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou.
Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal.
O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco.
Ninguém olha para ninguém. O silêncio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses.
Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala de espera de um "consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos:
Na última quarta-feira, estávamos:
1. Eu
2. Um crioulinho muito bem vestido,
3. Um senhor de uns cinqüenta anos e
4. Uma velha gorda.
Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do principio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados.
(2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para levá-lo até aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro e não conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba"? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza.
O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele.
Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro.
Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina.
(3)E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos?
Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa.
Claro, abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual? Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.
(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.
Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista.
Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera...
Ele ri.... Ri muito, o meu psicanalista, e diz:
- O Ditinho é o nosso office-boy.
- O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.
- E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe.
- "E você, não vai ter alta tão cedo..."
Está chegando o verão e com ele o veraneio, como chamamos aqui no Sul.
Não sei se vocês, de outros Estados, sabem, mas temos o mais fantástico litoral do País:
de Torres ao Chuí, uma linha reta, sem enseadas, baias, morros, re-entrâncias ou recortes.
Nada! Apenas uma linha reta, areia de um lado, o mar do outro.
Torres, aliás, é um equívoco geográfico, contrário às nossas raízes farroupilhas e devia estar em Santa Catarina.
Característica nossa, não gostamos de intermediários.
Nosso veraneio consiste em pisar na areia, entrar no mar, sair do mar e pisar na areia.
Nada de vistas deslumbrantes, vegetações verdejantes, montanhas e falésias, prainhas paradisíacas e
outras frescuras cultivadas aí para cima.
O mar gaúcho não é verde, não é azul, não é turquesa.
É marrom!
Cor de barro iodado, é excelente para a saúde e para a pele! E nossas ondas são constantes, nem pequenas
nem gigantes, não servem para pegar jacaré ou furar onda. O solo do nosso mar é escorregadio, irregular,
rico em buracos. Quem entra nele tem que se garantir.
Não vou falar em inconvenientes como as estradas engarrafadas, balneários hiper-lotados,
supermercados abarrotados, falta de produtos, buzinaços de manhã de tarde e de noite, areia fervendo,
crianças berrando, ruas esburacadas, tempestades e pele ardendo, porque protetor solar é coisa de
fresco e em praia de gaúcho não tem sombra. Nem nos dias de chuva, quase sempre nos fins-de-semana,
provocando o alegre, intermitente, reincidente e recorrente coaxar dos sapos e assustadoras revoadas de mariposas.
Dois ventos predominam, em nosso veraneio: o nordeste – também chamado de nordestão – e o sul, cuja origem é a Antártida.
O nordestão é vento com grife e estilo... estilo vendaval.
Chega levantando areia fina que bate em nosso corpo como milhões de mosquitos a nos pinicar.
Quem entra no mar, ao sair rapidamente se transforma no – como chamamos com bom-humor – veranista à milanesa.
A propósito, provoca um fenômeno único no universo, fazendo com que o oceano se coloque em posição diagonal à areia:
você entra na água bem aqui e quando sai, está a quase um quilômetro para sul. Essa distância é variável, relativa ao
tempo que você permanecer dentro da água.
Outra coisa: nosso mar é pra macho! Água gelada, vai congelando seus pés e termina nos cabelos.
Se você prefere sofrer tudo de uma vez, mergulhe e erga-se, sabendo que nos próximos quinze minutos sua
respiração voltará ao normal: é o tempo que leva para recuperar-se do choque térmico.
Noventa por cento do nosso veraneio é agraciado pelo nordestão que, entre outras coisas, promove uma atividade
esportiva praiana, inusitada e exclusiva do Sul: Caça ao guardassol. Guardassol, você sabe, é o antigo guarda-sol,
espécie de guarda-chuva de lona, colorida de amarelo, verde, vermelho, cores de verão, enfim, cujo cabo tem uma
ponta que você enterra na areia e depois senta embaixo, em pequenas cadeiras de alumínio que não agüentam seu
peso e se enterram na areia.
Chega o nordestão e... lá se vai o guardassol, voando alegremente pela orla e você correndo atrás.
Ganha quem consegue pegá-lo antes de ele se cravar na perna de alguém ou desmanchar o castelo de areia que,
há três horas, você está construindo com seu filho de cinco anos.
O vento sul, por sua vez, é menos espalhafatoso. Se você for para a praia de sobretudo, cachecol e meias de lã,
mal perceberá que ele está soprando. É o vento ideal para se comprar milho verde e deixar a água fervente
escorrer em suas mãos, para aquecê-las.
Raramente, mas acontece, somos brindados com o vento leste, aquele que vem diretamente do mar para a terra.
Aqui no Sul, chamamos o vento leste de ‘vento cultural’, porque quando ele sopra, apreendemos cientificamente como se
sentem os camarões cozinhados ao bafo.
E, em todos os veraneios, acontece aquele dia perfeito: nenhum vento, mar tranquilo e transparente, o comentário geral é:
“foi um dia de Santa Catarina, de Maceió, de Salvador” e outras bichices. Esse dia perfeito quase sempre acontece
no meio da semana, quando quase ninguém está lá para aproveitar. Mas fala-se dele pelo resto do veraneio, pelo
resto do ano, até o próximo verão.
Morram de inveja, esta é outra das coisas de gaúcho!
Atenta a essas questões, nossa industria da construção civil, conhecida mundialmente por suas soluções criativas e
inéditas, inventou um sistema maravilhoso que nos permite veranear no litoral a uma distância não inferior a quinhentos
metros da areia e, na maioria dos casos, jamais ver o mar: os famosos condomínios fechados.
A coisa funciona assim: a construtora adquire uma imensa área de terra (areia), em geral a preço barato porque fica longe
do mar, cerca tudo com um muro e, mal começa a primavera, gasta milhares de reais em anúncios na mídia,
comunicando que, finalmente agora você tem ao seu dispor o melhor estilo de veranear na praia: longe dela.
Oferece terrenos de ponta a ponta, quanto mais longe da praia, mais caro é o terreno. Você vai lá e compra um.
Enquanto isso a construtora urbaniza o lugar: faz ruas, obras de saneamento, hidráulica, elétrica, salão de festas comunitário, piscina comunitária com águas térmicas, jardins e até lagos e lagoas artificiais onde coloca peixes para você pescar. Sem falar no ginásio de esportes, quadras de tênis, futebol, futebol-sete, se o lago for grande, uma lancha e um professor para você esquiar na água e todos os demais confortos de um condomínio fechado de Porto Alegre, além de um sistema de segurança quase, repito, quase invulnerável.
Feliz proprietário de um terreno, você agora tem que construir sua casa, obedecendo é claro ao plano-diretor do condomínio que abrange desde a altura do imóvel até o seu estilo.
O que fazemos nós, gaúchos, diante dessa fabulosa novidade? Aderimos, é claro. Construímos as nossas casas que, de modo algum, podem ser inferiores as dos vizinhos, colocamos piscinas térmicas nos nossos terrenos para não precisar usar a comunitária, mobiliamos e equipamos a casa com o que tem de melhor, sobretudo na questão da tecnologia: internet, TV à cabo, plasma ou LSD, linhas telefônicas, enfim, veraneamos no litoral como se não tivéssemos saído da nossa casa na cidade.
Nossos veraneios costumam começar aí pela metade de janeiro e terminar aí pela metade de fevereiro, depende de quando cai o Carnaval. Somos um povo trabalhador, não costumamos ficar parados nas nossas praias. Vamos para lá nas sextas-feiras de tarde e voltamos de lá nos domingos à noite. Quase todos na mesma hora, ida e volta.
É assim que, na sexta-feira, pelas quatro ou cinco da tarde, entramos no engarrafamento. Chegamos ao nosso condomínio lá pelas nove ou dez da noite. Usufruímos nosso novo estilo de veranear no sábado – manhã, tarde e noite – e no domingo, quando fechamos a casa.
Adoramos o trabalhão que dá para abrir, arrumar e prover a casa na sexta de noite, e o mesmo trabalhão que dá no domingo de noite..
E nem vou contar quando, ao chegarmos, a geladeira estragou, o sistema elétrico pifou ou a empregada contratada para o fim-de-semana não veio.
Temos, aqui no Sul, uma expressão regional que vou revelar ao resto do mundo: Graças a Deus que terminou esta bosta de veraneio!
Amiga:
Conforme minha promessa, estou enviando um e-mail
contando as novidades da minha primeira semana depois de ser
transferida pela firma para o Rio de Janeiro. Terminei hoje de arrumar
as coisas no meu novo apartamento.
Ficou uma gracinha, mas estou exausta. São dez da
noite e já estou pregada.
Segunda-Feira: Cheguei na firma e já adorei. Entrei no
elevador quase no mesmo instante que o homem mais lindo desse planeta.
Ele é loiro, tem olhos verdes e o corpo musculoso parece querer
arrebentar o terno.
Lindooooo! Estou apaixonada. Olhei disfarçadamente a
hora no meu relógio de pulso e fiz uma promessa de estar parada
defronte ao elevador todos os dias a essa mesma hora. Ele desceu no
andar da engenharia. Conheci o pessoal do setor, todos foram
atenciosos comigo.
Até o meu chefe foi super delicado. Estou maravilhada
com essa cidade.
Cheguei em casa e comi comida enlatada. Amanhã vou a um
mercado comprar alguma coisa.
Terça-Feira: Amiga! Precisava contar. Sabe aquele homem
de quem falei?
Ele olhou para mim e sorriu quando entramos no
elevador. Fiquei sem ação e baixei a cabeça. Como sou burra! Passei o
dia no trabalho pensando que preciso fazer um regime. Me olhei no
espelho hoje de manhã e estou com uma barriguinha indiscreta. Fui no
mercado e só comprei coisinhas leves:biscoitos, legumes e chás.
Resolvido! Estou de dieta.
Quarta-Feira: Acordei com dor-de-cabeça. Acho que foi a
folha de alface ou o biscoito do jantar. Preciso manter-me firme na
dieta.
Quero emagrecer dois quilos até o fim-de-semana. Ah! O
nome dele é Marcelo. Ouvi um amigo dele falando com ele no elevador. E
ainda tem mais: ele desmanchou o noivado há dois meses e está sozinho.
Consegui sorrir para ele quando entrou no elevador e me
cumprimentou. Estou progredindo, né? Como faço para me insinuar sem
parecer vulgar?
Comprei um vestido dois números menor que o meu. Será a
minha meta.
Quinta-Feira: O Marcelo me cumprimentou ao entrar no
elevador. Seu sorriso iluminou tudo! Ele me perguntou se eu era a
arquiteta que viera transferida de Brasília e eu só fiz: 'U-hum'...
Ele me perguntou se eu estava gostando do Rio e eu disse:
'U-hum'. Aí ele perguntou se eu já havia estado antes aqui e eu disse:
'U-hum'. Então ele perguntou se eu só sabia falar 'U-hum' e eu
respondi: 'Ã-hã'. Será que fui muito evasiva? Será que eu deveria ter
falado um pouco mais?
Ai, amiga! Estou tão apaixonada! Estou resolvida!Amanhã
vou perguntar se ele não gostaria de me mostrar o Rio de Janeiro no
final de semana. Quanto ao resto, bem...ando com muita enxaqueca. Acho
que vou quebrar meu regime hoje. Estou fazendo uma sopa de legumes.
Espero que não me engorde demais.
Sexta-Feira: Amiga! Estou arruinada! Ontem à noite não
resisti e me empanturrei. Coloquei bastante batata-doce na sopa, além
de couve, repolho e beterraba. Menina, saí de casa que parecia um
caminhão de lixo.
Como eu peidava! (nossa! Você não imagina a minha
vergonha de contar isto, mas se eu não desabafar, vou me jogar pela
janela!).
No metrô, durante o trajeto para o trabalho, bastava um
solavanco para eu soltar um futum que nem eu mesma suportava.
Teve um momento em que alguém dentro do trem gritou:
'Aí! Peidar até pode, mas jogar merda em pó dentro do vagão é muita
sacanagem!' Uma senhora gorda foi responsabilizada. Todo mundo olhava
para ela, tadinha. Ela ficou vermelha, ficou amarela, e eu
aproveitava cada mudança de cor para soltar outro. O meu maior medo
era prender e sair um barulhento. Eu estava morta de vergonha.
Desci na estação e parei atrás de uma moça com um bebê
no colo, enquanto aguardava minha vez de sair pela roleta. Aproveitei
e soltei mais um. O senhor que estava na frente da mulher com o bebê
virou-se paraela e disse: 'Dona! É melhor a senhora jogar esse
bebê fora porque ele está estragado!'.
Na entrada do prédio onde trabalho tem uma senhora que
vende bolinhos, café, queijo, essas coisas de camelô. Pois eu ia
passando e um freguês começou a cheirar um pastel, justo na hora em
que o futum se espalhou. O sujeito jogou o pastel no lixo e
reclamou:'Pó, dona Maria! Esse pastel tá bichado!'
Entrei no prédio resolvida a subir os dezesseis degraus
pela escada.
Meu azar foi que o Marcelo ficou segurando a porta,
esperando que eu entrasse. Como não me decidia, ele me puxou pelo
braço e apertou o botão do meu andar. Já no terceiro andar ficamos
sozinhos. Cheguei a me sentir aliviada, pois assim a viagem terminaria
mais rápido. Pensei rápido demais. O elevador deu um solavanco e as
luzes se apagaram.
Quase instantaneamente a iluminação de emergência
acendeu. Marcelo sorriu (ai, aquele sorriso...) e disse que era a
bruxa da sexta-feira.
Era assim mesmo,logo a luz voltaria, não precisava se
preocupar. Mal sabia ele que eu estava mesmo preocupada.
Amiga, juro que tentei prender.
Mas antes que saísse com estrondo, deixei escapar.
Abaixei e fiquei respirando rápido, tentando aspirar o
máximo possível, como se estivesse me sentindo mal, com falta de ar.
Já se imaginou numa situação dessas? Peidar e ficar tentando aspirar o
peido para que o homem mais lindo do mundo não perceba que
você peidou?
Ele ficou muito preocupado comigo e, se percebeu o mau
cheiro, não o demonstrou.
Quando achei que a catinga havia passado, voltei a
respirar normal.
Disse para ele que eu era claustrófoba. Mal ele me
ajudou a levantar, eu não consegui prender o segundo, que saiu ainda
pior que o anterior.
O coitado dessa vez ficou meio azulado, mas ainda não
disse nada.
Abaixei novamente e fiquei respirando rápido de novo,
como uma mulher em estado de parto.
Dessa vez Marcelo ficou afastado, no canto mais
distante de mim no elevador.
Na ânsia de disfarçar, fiquei olhando para a sola dos
meus sapatos, como se estivesse buscando a origem daquele fedor
horroroso.
Ele ficou lá, no canto, impávido. Nem bem o cheiro se
esvaiu e veio outro.
Ele se desesperou e começou a apertar a campainha de emergência.
Coitado! Ele esmurrou a porta, gritou, esperneou, e eu
lá, na respiração cachorrinho.
Quando a catinga dissipou, ele se acalmou.
As lágrimas começaram a escorrer pelos meus olhos.
Ele me viu chorando, enxugou meus olhos e disse: 'Meus
olhos também estão ardendo...' Eu juro que pensei que ele fosse dizer
algo bonito.
Aquilo me magoou profundamente. Pensei:'Ah, é, FDP?
Então acabou a respiração cachorrinho...'
Depois disso, no primeiro ele cobriu o rosto com o paletó.
No segundo, enrolou a cabeça.
No terceiro, prendeu a respiração, no quarto, ele ficou roxo.
No quinto, me sacudiu pelos braços e berrou: 'Mulher!
Pára de se cagar!'. Depois disso ele só chorava. Chorou como um bebê
até sermos resgatados, quatro horas depois.
Entrei no escritório e pedi minha transferência para
outro lugar, de preferência outro País.
Apague este e-mail depois de ler, tá?
Sua amiga, Ana.
Esquerda e Direita
Uma certa universitária cursava o sexto semestre da Faculdade. Como é comum no meio universitário, ela estava convencida de que era de esquerda e estava a favor da distribuição da riqueza. Tinha vergonha de que o seu pai fosse empresário e conseqüentemente de direita, portanto, contrário aos programas socialistas e seus projetos que davam benefícios aos que mais necessitavam e cobrava impostos mais altos para os que tinham mais dinheiro.
A maioria dos seus professores e alunos sempre defendia a tese de distribuição mais justa das riquezas do país.
Por tudo isso, um dia, ela decidiu enfrentar o pai. Falou com ele sobre o materialismo histórico e a dialética de Marx, procurando
mostrar que ele estava errado ao defender um sistema tão injusto e perverso como a direita pregava. Seu pai ouviu pacientemente, como só um pai consegue fazer, todos os argumentos da filha e no meio da conversa perguntou:
- Como você vai na faculdade ?
- Vou bem, respondeu ela. Minha média de notas é 9, estudo muito mas vale a pena. Meu futuro depende disso, eu sei! Não tenho vida social, durmo pouco, mas vou em frente.
O pai prosseguiu:
- E aquela tua amiga Sônia, como vai?
E ela respondeu com muita segurança:
- Muito mal. A sua média é 3, ela passa os dias no shopping e namora o dia todo. Pouco estuda e algumas vezes nem sequer vai às aulas. Acho até que ela é meio burra. Com certeza, repetirá o semestre.
O pai, olhando nos olhos da filha, aconselhou:
- Que tal se você sugerisse aos professores ou ao coordenador do curso para que sejam transferidos 3 pontos das suas notas para as da Sônia.
Com isso, vocês duas teriam a mesma média. Não seria um bom resultado para você, mas, convenhamos, seria uma boa e democrática distribuição de notas para permitir a futura aprovação de vocês duas.
Ela indignada retrucou:
- Porcaria nenhuma! Trabalhei muito para conseguir essas notas, enquanto a Sônia buscava o lado fácil da vida. Não acho justo que todo o trabalho que tive seja, simplesmente, dado a outra pessoa.
Seu pai, então, a abraçou, carinhosamente, dizendo:
- BEM-VINDA À DIREITA!!!
No pára-choque de um caminhão, reparei a seguinte frase:
“Trabalhe duro. Existem milhões de pessoas vivendo do fome-zero, e estão dependendo de você.”
Autor desconhecido
Um dia de merda
O que é um peido para quem está todo cagado?
A expressão do título é conhecida de todos, mas o texto que a originou é menos.
É um texto de Luis Fernando Veríssimo incluído na obra Veríssima que
ele fez numa viagem para Miami.
Só o li recentemente e transcrevo abaixo.
Quem não conhece, leia.
Vale a pena...
'Aeroporto Santos Dumont, 15:30..
Senti um pequeno mal-estar causado por uma cólica intestinal, mas nada
que uma urinada ou uma barrigada não aliviasse.
Mas, atrasado para chegar ao ônibus que me levaria para o Galeão, de
onde partiria o vôo para Miami, resolvi segurar as pontas. Afinal de
contas são só uns 15 minutos de busão. 'Chegando lá, tenho tempo de
sobra para dar aquela mijadinha esperta, tranqüilo, o avião só sairía
às 16:30'.
Entrando no ônibus, sem sanitários. Senti a primeira contração e tomei
consciência de que minha gravidez fecal chegara ao nono mês e que
faria um parto de cócoras assim que entrasse no banheiro do aeroporto.
Virei para o meu amigo que me acompanhava e, sutil falei:
'Cara, mal posso esperar para chegar na merda do aeroporto porque
preciso largar um barro.'
'Nesse momento, senti um urubu beliscando minha cueca, mas botei a
força de vontade para trabalhar e segurei a onda.'
O ônibus nem tinha começado a andar quando, para meu desespero, uma
voz disse pelo alto falante: 'Senhoras e senhores, nossa viagem entre
os dois aeroportos levará em torno de uma hora, devido a obras na
pista.
'Aí o urubu ficou maluco querendo sair a qualquer custo'. Fiz um
esforço hercúleo para segurar o trem merda que estava para chegar na
estação ânus a qualquer momento. Suava em bicas. Meu amigo percebeu e,
como bom amigo que era, aproveitou para tirar um sarro.
O alívio provisório veio em forma de bolhas estomacais, indicando que
pelo menos por enquanto as coisas tinham se acomodado. Tentava me
distrair vendo TV, mas só conseguia pensar em um banheiro, não com uma
privada, mas com um vaso sanitário tão branco e
tão limpo que alguém poderia botar seu almoço nele. E o papel
higiênico então: branco e macio, com textura e perfume e, ops, senti
um volume almofadado entre meu traseiro e o assento do ônibus e
percebi, consternado, que havia cagado. Um cocô sólido e comprido
daqueles que dão orgulho de pai ao seu autor.
Daqueles que dá vontade de ligar pros amigos e parentes e convidá-los
a apreciar na privada.
Tão perfeita obra, dava pra expor em uma bienal.
Mas sem dúvida, a situação tava tensa. Olhei para o meu amigo,
procurando um pouco de piedade, e confessei sério:
'Cara, caguei!'
Quando meu amigo parou de rir, uns cinco minutos depois, aconselhou-me
a relaxar, pois agora estava tudo sob controle.
'Que se dane, me limpo no aeroporto', pensei.
'Pior que isso não fico'.
Mal o ônibus entrou em movimento, a cólica recomeçou forte.
Arregalei os olhos, segurei-me na cadeira mas não pude evitar, e sem
muita cerimônia ou anunciação, veio a segunda leva de merda. Desta
vez, como uma pasta morna. Foi merda para tudo que é lado, borrando,
esquentando e melando a bunda, cueca, barra da camisa, pernas,
panturrilha, calças, meias e pés.
E mais uma cólica anunciando mais merda, agora líqüida, das que
queimam o fiofó do freguês ao sair rumo a liberdade. E depois um peido
tipo bufa, que eu nem tentei segurar.
Afinal de contas, o que era um peidinho para quem já estava todo cagado...
Já o peido seguinte, foi do tipo que pesa...
E me caguei pela quarta vez.
Lembrei de um amigo que certa vez estava com tanta caganeira que
resolveu botar modess na cueca, mas colocou as linhas adesivas viradas
para cima e quando foi tirá-lo levou metade dos pêlos do rabo junto.
Mas era tarde demais para tal artifício absorvente. Tinha menstruado
tanta merda que nem uma bomba de cisterna poderia me ajudar a limpar a
sujeirada.
Finalmente cheguei ao aeroporto e saindo apressado com passos
curtinhos, supliquei ao meu amigo que apanhasse minha mala no
bagageiro do ônibus e a levasse ao sanitário do aeroporto para que eu
pudesse trocar de roupas. Corri ao banheiro e entrando de boxe em
boxe, constatei falta de papel higiênico em todos os cinco.
Olhei para cima e blasfemei: 'Agora chega, né?'
Entrei no último, sem papel mesmo, e tirei a roupa toda para analisar
minha situação (que concluí como sendo o fundo do poço) e esperar pela
minha salvação, com roupas limpinhas
e cheirosinhas e com ela uma lufada de dignidade no meu dia.
Meu amigo entrou no banheiro com pressa, tinha feito o 'check-in'
e ia correndo tentar segurar o vôo. Jogou por cima do boxe o cartão de
embarque e uma maleta de mão e saiu antes de qualquer protesto de
minha parte.
'Ele tinha despachado a mala com roupas'.
Na mala de mão só tinha um pulôver de gola 'V'.
A temperatura em Miami era de aproximadamente 35 graus.
Desesperado comecei a analisar quais de minhas roupas seriam, de algum
modo, aproveitáveis. Minha cueca, joguei no lixo. A camisa era
história.
As calças estavam deploráveis e assim como minhas meias, mudaram de
cor tingidas pela merda .
Meus sapatos estavam nota 3, numa escala de 1 a 10.
Teria que improvisar.
A invenção é mãe da necessidade, então transformei uma simples privada
em uma magnífica máquina de lavar. Virei a calça do lado avesso,
segurei-a pela barra, e mergulhei a parte atingida na água. Comecei a
dar descarga até que o grosso da merda se desprendeu. Estava pronto
para embarcar.
Saí do banheiro e atravessei o aeroporto em direção ao portão de
embarque trajando sapatos sem meias, as calças do lado avesso e
molhadas da cintura ao joelho (não exatamente limpas) e o pulôver gola
'V', sem camisa.
Mas caminhava com a dignidade de um lorde.
Embarquei no avião, onde todos os passageiros estavam esperando o
'RAPAZ QUE ESTAVA NO BANHEIRO' e atravessei todo o corredor até o meu
assento, ao lado do meu amigo que sorria.
A aeromoça aproximou-se e perguntou se precisava de algo.
Eu cheguei a pensar em pedir 120 toalhinhas perfumadas para disfarçar
o cheiro de fossa transbordante e uma gilete para cortar os pulsos,
mas decidi não pedir:
'Nada, obrigado.'
Eu só queria esquecer este dia de merda. Um dia de merda...
* Luis Fernando Veríssimo* (verídico)